200 anos de Petra


Ruínas em Petra. Foto tirada de stock.xchng.

O som monotônico de violinos tocando suavemente enquanto uma frase é repetida no oboé. A batida do tímpano interrompe a entrada, dando espaço para um crescente de instrumentos que entram com uma melodia majestosa e imponente. Enquanto isso, Indiana, seu pai e Sallah passam pelos últimos metros do Siq antes de avistar a cidade encrustrada na paredão de pedra. A visão os faz parar seus cavalos por alguns instantes, e logo seguem boquiabertos, olhos fixos no portal do monumento nabateu, enquanto a música para num supetão e ouve-se o grasnar de um pássaro ao longe. Todos descem dos cavalos, enquanto a câmera, de longe, vai subindo e desvendando as colunas amagentadas que sustentam a escultura arquitetônica aflorando da rocha.

Al Khazneh, ou “The Treasury”. Foto por Ana Lucia Kalil.

Se até Indiana Jones, que já passou por todo tipo de paisagem, monumento e tesouro teve que parar para admirar Al Khazneh (ou The Treasury, em inglês), o primeiro monumento que se vê ao chegar em Petra, é porque alguma coisa especial esse lugar realmente tem. Considerada uma das 7 maravilhas do mundo moderno, Petra foi construída por volta do século IV a.C. pelo povo nabateu e serviu como um dos principais postos na rota comercial entre os povos da Península Árabe para a Europa e dos povos asiáticos para o norte africano. O difícil acesso à ex-capital do povo nabateu não se deu por acaso: as rochas sevem como proteção natural dos tesouros de uma nação mercadora cuja riqueza abrangia mais que a arquitetura, mas principalmente os bens provenientes da intensa atividade comercial da região.

Este ano a cidade de Petra, na Jordânia, comemora 200 anos de sua redescoberta pelo explorador suíço Johann Ludwig Burckhardt após ficar mais de um milênio deserta, conhecida apenas por nômades locais. Até os anos 1980, muitos beduínos chegavam a cozinhar e hospedar visitantes em suas casas dentro de Petra, mas o reino jordaniano implementou um projeto habitacional para realocar os beduínos em Wadi Musa, evitando que os monumentos fossem deteriorados pelas atividades humanas desregradas. O acesso a turistas só tornou-se viável de fato nos últimos cinco anos, graças à construção de uma autoestrada a partir da capital Amã, situada a pouco mais de duas horas de carro. Antes feito basicamente por grupos de beduínos que paravam em caravanserais – postos de abastecimento que acompanhavam as rotas de comércio milenares -, o acesso é fácil agora. Hoje em dia há um grande investimento em toda a infraestrutura local, sendo possível atravessar o país de um lado ao outro pelas ótimas estradas locais em cerca de 5 horas.

Entrando pelo Siq, um estreito com mais de 1 quilômetro de comprimento e ladeado por imponentes paredes onduladas com 80 metros de altura, esculpidas pelas intempéries, o visitante caminha vendo apenas rocha e uma faixa de céu, imitando os passos de Indiana Jones num cenário místico que culmina na visão de Al Khazneh, uma fachada de 30 metros de largura e 43 metros de altura talhada na rocha. É o momento em que os queixos encostam no chão. Ainda assim, Petra está num contínuo processo de redescoberta. No próprio Al Khazneh, o monumento mais famoso da cidade, duas criptas foram  escavadas nos últimos dois anos e acredita-se que uma terceira está ainda por ser revelada sob o véu de areia e pedras que cobre os tesouros arqueológicos do edifício. O visitante pode se deslumbrar com a grandiosa Tumba dos Reis, onde 20 tumbas foram construídas num paredão de quase 800m de altura, ou diversos e pequenos rastros de habitação humana como pequenos túmulos, passarelas e muitos, muitos degraus.

Velas em Petra a noite. Foto de Peter West Carey.

O passeio pela cidade pode ser feito tanto de dia quanto de noite e o ideal é que o visitante faça os dois, começando pelo passeio noturno. A noite, acompanhado por milhares de velas, o visitante é imerso na atmosfera beduína com chás e performances musicais na entrada do Al Khazneh, ficando embriagado pelo sentimento atemporal das ruínas. A música foi uma das principais atrações – fora a cidade em si, é claro – do festival Celebration of Petra, que ocorreu entre os dias 20 a 22 de agosto. Dentre os artistas participantes da comemoração musical estão o cantor Omar Al Abdalat, popular em países de cultura muçulmana, o grupo musical Tareq Al Nassar e a banda das Forças Armadas Jordanianas.

Talvez nada do que tenha sido descrito anteriormente tenha atraído você, mas com certeza saber que o Cálice Sagrado está enterrado em algum lugar do solo de Petra após Indiana Jones tê-lo abandonado na Última Cruzada e que você pode ter a sorte de achá-lo é mais um motivo para ir para lá. E mesmo se não achá-lo, estar no meio de uma cidade que carrega tanta cultura é com certeza uma maneira de se imbuir de milhares de anos de história, o suficiente para muitas e muitas vidas.

Leia também mais sobre outros lugares da Jordânia, um país surpreendente!

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